sábado, 15 de janeiro de 2011

The slow drug

Escreve-se pouco.
Vive-se menos ainda.
Não tenho atração pelos pastiches ou simulacros da pós-modernidade. Nem acredito nela. Ou neles. Interessam-me mais os insetos que me fazem companhia sincera e silenciosa nas noites insones. Meus olhos doloridos em um sono surreal que carrega consigo o peso de vidas e mais vidas.
O sorriso alto quebra as especulações de dias tristes. Eles se afastam. Se você não me entender não tem problema... estamos quites. E das trocentas frases feitas, dos milhares de amores expostos, das relevâncias estripadas em espaços tão tangíveis quanto meus pensamentos, eu venho aqui leve, irrelevante e surda para dizer o que você já sabe. Para dizer o que não tem interesse, não tem vergonha... menos ainda uma razão de ser.
Volto aos insetos que não me encaram, apenas vivem, sem uma linha escrita ou a preocupação de um legado qualquer eles transitam. Encaro como uma sabedoria esse comportamento e me retiro de cena... silenciosa e inferior. Eles me ignoram à medida que me intrigam.
Hoje foi um dia perfeito, como qualquer outro teria sido.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Sem título

Eu
fantoche do absurdo
cabeça vazia e peito cheio
sempre
em desacordo com o tempo
quase
ao alcance das constelações

No caminho não procuro
tabacaria alguma
tampouco finjo o que não pretendo

Palavras ecoam
e a melhor expressão
é a do silêncio
que mesmo verbo
não versa em nada

Não há flores neste asfalto
e a poesia em mim se cala

domingo, 21 de novembro de 2010

Veículo QSP!


veículo q.s.p.

é uma fusão co-administração da poesia do grupo ACADEMIA ONÍRICA com a música da banda QUARTERÃO – indicado para o tratamento de qualquer efeito placebo, diz NÃO a toda prescrição manipuladora! – inibidor potente da flacidez do não-dito, do não-feito! – estudos adequados atestam sua eficácia pró-permanência de toda sorte de inspiração, sobretudo as inflamáveis – tais pesquisas também confirmam que a administração de VEÍCULO Q.S.P. concomitantemente com festa, diversão e fúria resultou em um considerável acúmulo de bem estar no paciente, ou melhor, no sujeito – embora estudos de interações com outras drogas não tenham sido realizados, tais combinações podem ser positivas: combatendo ânsia, angústia e medo – existem relatos de que POESIA TARJA PRETA é certeiramente indicada para exterminar, de modo sumário, algemas e o mais que com elas se pareçam – QUARTERÃO é adequado para catalisar o grito primata do homem solar, intermunicipal e provinciano, que se rebela contra as agruras da decrépita cidade frankstein – VEÍCULO Q.S.P. é bem tolerado – as reações adversas mais comumente observadas são reverberações no tempo – isto é, reações adversas, não – o espanto é poético, ou seja: foi, é e será uma QUANTIDADE SUFICIENTE PARA uma reação adverso +

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Questão de perspectiva

Alguns dizem que meu filho é pequeno.
Discordo...
como sempre olho de perto, o vejo enorme.
O maior!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Liberdade, independência e roupas a secar

Estabeleci meu conceito de liberdade e independência com os pregadores de roupas. Exatamente assim. Quero uma casa grande, alta, ventilada e com espaço para meu filho correr e inventar mundos ao meu redor. Quero continuar sendo criança adulta para ele, uma missão mais que valiosa que assumi ainda menina e, à força, me fiz mulher diante dos fatos.
Os pregadores de roupas são a conseqüência do meu esforço por uma vida independente: um dia, não muito distante, os comprarei para minha casa. Acho o ato máximo de liberdade eu ter meus próprios pregadores, grampos coloridos que irão se perder, multifacetados e infiéis a mim. Meus pregadores, minhas roupas em meu varal!
Este dia glorioso povoa minha imaginação: eu chego em casa, roupas leves num sábado ensolarado (o sol no sábado é mais gostoso, menos agressivo e sempre vem acompanhado de música), pego uma singela peça de roupa molhada, estendo sobre o varal e, com meu pregador, fixo a mesma no tal ato máximo de liberdade. Eu comprei o pregador, ele me obedece, somos moradores dessa mesma casa, posso deixá-lo organizado no varal, solto ao chão, grudado na roupa já seca... posso chorar um dia pregando as roupas, ele, meu confidente.
Num dia qualquer minha raiva pode ser descontada num pregador verde, numa ira sem sentido, arremessado violentamente contra a parede. Ele, mais forte que eu, vai rir do meu ato insano, e vai mostrar que aquilo não serviu pra nada. Vai me observar chorar arrependida, envergonhada de todo o teatro dramático daquele instante, e voltará às minhas mãos, como o meu querido pregador de roupas, a quem posso ser livre. Não existe nada mais vivo e real que colocar as roupas para secar. Nem nada mais livre que ter meu próprio pregador de roupas, no modelo adequado às minhas necessidades, nas cores que desejo, no mundo que construi para mim.