quinta-feira, 9 de julho de 2015

Do silêncio


Há muito não visito este espaço. Sei que ficou um ar de abandono e desistência, mas é exatamente o oposto! Estou trabalhando em publicações físicas, meus livros para ser mais precisa. Espero que meus leitores entendam e aguardem com carinho.

Atenciosamente,


Laís Romero

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

De onde vêm os leões


Um leão silente, ignorante de si
apresenta-se ao sol, sem sabê-lo sol
Seu pelo amaciado, sem nomear texturas
seu olhar imponente, força de desconhecer,
atravessa uma retina
a minha
E na presente hora, instante consumido
me leva ao desejo de perecer

domingo, 20 de julho de 2014

Resenha da semana: 'Nas tuas mãos', de Inês Pedrosa





Inês Pedrosa foi uma dessas autoras que surgiu em minha vida ao delicioso acaso da busca na livraria. Percorrer despretensiosamente prateleiras com um olhar atencioso, acreditando que vou encontrar alguma leitura que me surpreenda, algo que me arrebate as horas de leitura num átimo de tempo, num segundo denso. Foi assim. Encontrei a obra Nas tuas mãos.  A atual diretora da Casa Fernando Pessoa é uma jornalista que pode ser facilmente encontrada no Twitter, e que conquista em seus romances pelo ar melancólico e as palavras macias. Nascida em Portugal em 1962, atuou nos principais jornais de seu país natal. O romance aqui resenhado foi laureado com o Prêmio Máxima.
Em Nas tuas mãos, encontrei três gerações de mulheres descrevendo/escrevendo suas vidas, suas faltas, seus desejos e desesperos. A linguagem é inteligente, leve, e o delinear das personagens é feito diante das experiências de cada uma. A primeira parte, O diário de Jenny, reverbera a tristeza da geração mais antiga da família, as lacunas do discurso evidenciam segredos. Sendo Jenny o sujeito desta parte do romance, é compreensível (eu diria até que é de dedução fácil) que se veja a complexidade de apenas um lado da história. O tom de exposição e confissão, a dor na sua mais viva exibição: o diário, as palavras em primeira pessoa, memórias e incursão no universo da invenção e das alegorias. As páginas de um diário são as sensações quase que no calor dos acontecimentos. Em um olhar pessoal, foi o momento de grande prazer de minha leitura. Há ali uma entrega romântica, apoiada em um sofrimento que veste bem o perfil da narrativa e se comunica profundamente com as narrativas posteriores. Abrir a leitura com o íntimo de um diário foi, de longe, um laço no leitor que escolhe esta obra para desvendar.
A segunda parte chega com dureza, fotografias que se sobrepõem a ensaios feitos pela personagem deste álbum: uma espécie de antologia de capturas dos momentos da árvore que compõe a vida da narradora desta parte. Em O álbum de Camila há o instante e a narrativa. Mais uma vez há a exposição da dor, que perde seu tom melancólico do capítulo anterior para ganhar uma cor mais forte, como um acordar após real pesadelo. As experiências ganham uma descrição minuciosa, bem como um patamar intertextual evidenciado.
Intitulada As cartas de Natália, a terceira parte se comunica diretamente com a primeira e fecha as pontas das histórias cruzadas deste romance. Inês Pedrosa escolhe palavras como quem desfia um tecido leve, ao mesmo tempo que maltrata a carne na escolha de um enredo que toca no cerne da memória. Três gerações de mulheres: perpetuação de segredos, pactos. Um universo complexo e silencioso, que observa de dentro de baús e em antigos porta-retratos. 
A leitura deste romance é fácil, não desafia esteticamente, mesmo tendo uma mudança significativa da forma como é escrito de capítulo a capítulo. O que captura o leitor é a melancolia que aparentemente nasceu com a escrita em português, o time contemporâneo de escritores portugueses, quando elencado pela crítica em geral, cita nomes conhecidos por serem melancólicos e/ou pessimistas. O enredo de Nas tuas mãos é a porta convidativa, a intrigante mão que segura a atenção (tensão) do leitor. Ler este romance causa dor.

domingo, 13 de julho de 2014

Resenha da semana: 'O rei se inclina e mata', de Herta Müller





A vida acontece e se torna real/sentido através das palavras. Ler Herta Müller é um exercício semiótico que, de forma universal, traduz a memória da perseguição ditatorial. A escritora romena, naturalizada alemã, atravessou uma vida conturbada: o pai, um romeno de origem alemã, fez parte da SS, as piores tropas nazistas. A mãe sofreu uma deportação que a fez muda de medo. Herta cresceu no silêncio velado de uma ditadura, e ainda assim estudou letras germânicas e literatura romena pela Universidade de Timisoara. Acabou emigrando para a antiga República Federal da Alemanha, por se recusar a colaborar com o serviço secreto romeno. Em meio a esta memória, ameaças de morte e amigos ‘suicidados’, Herta Müller, para além de todas as expectativas, foi agraciada com o Nobel de Literatura no ano de 2009.
Em sua obra “O rei se inclina e mata” (Der König verneigt sich und tötet, trad. Rosvitha Friesen Blume – São Paulo: Globo, 2013), Herta desfia uma narrativa de vida fragmentada em ensaios que remetem à dor e a palavra. Os jogos de poder, mediados pelos significados (proibições na ditadura, silêncio e medo), são explicitados por uma voz que medita diante da língua romena em comparação à língua alemã. Para os falantes do português a tradução foi certeira: não há perda da noção de ausência e presença de significantes para as palavras elencadas pela autora. A escrita de Herta é feita em alemão, mas considera os vernáculos romenos em seus significados primeiros diante das situações, e os direciona para expressões que configuram eventos específicos. Há uma desconstrução do sentido habitual das palavras, além de combinações que reinventam as circunstâncias de uma determinada imagem.
A sentença “Não posso me tornar aquilo que não existe em meu idioma”, permeia todas as considerações da obra. Dividida em nove ensaios, o destaque se dá para o ensaio-título “O rei se inclina e mata”, que justifica a estranheza desta imagem, e evidencia o caráter arrebatador da escrita de Herta. Há um terror lírico nas palavras da autora, uma naturalidade em imagens pouco habituais aos olhos de quem não viveu uma situação extrema. A especificidade dos acontecimentos (corro o risco aqui de cair no lugar comum) a faz universal. Há a ‘luta com palavras’, o relato cru e o suave ‘perceber a vida’.
Não costumo resenhar um livro entregando de imediato trechos da obra, mas sim traduzindo um recorte das possíveis sensações a serem compartilhadas. Minha leitura (acredito que todas as leituras são assim) é um diálogo em que evoco as leituras passadas, as vivências. No caso de “O rei se inclina e mata” o eixo palavra-realidade-memória chega a ser palpável e a figura do rei (a título de pesquisa um retrato do ditador romeno Nicolae Ceauscescu) é suave, reside nas lacunas, no lirismo, na crueldade com que Herta faz a poesia de seus ensaios: de considerações literárias a relatos de uma violência que se entranha na carne.
O título do terceiro ensaio do livro explicita bem o que aqui tento mostrar: “Se nos calamos, tornamo-nos incômodos – Se falamos tornamo-nos ridículos.” Herta escreveu no limite entre o incômodo e o medo de expor o cerne. Na fluidez de narrativas ensaísticas (talvez o termo venha a sanar uma possível conceituação do que Herta escreve nesta obra), o tempo se aproxima daquilo que todos vivenciamos nesta efêmera existência, e que a própria autora expõe em entrevista ao site O Globo:
“Acho que nenhum dos meus livros é cronológico. O que é cronológico? A vida não acontece apenas em uma linha ou direção de percepção, como nas recordações. A minha vida funciona assim. Não é um truque literário.” (O Globo, 28/07/2011)
Fica então o convite: 213 páginas de beleza, dor, silêncio, recusa e coragem.

domingo, 16 de junho de 2013

Explicação da ausência



Há muito não me aproximo das letras para trazer qualquer átimo literário para estas paragens. Removida de uma repetição de produções carentes de revisão, aproximo-me de uma nova característica que se pauta em repensar o ato poético. Talvez eu volte inserida em um novo tipo de produção mais preocupada com uma particularidade, ou talvez assuma um posto contemplativo que me traga o bom e velho masoquismo necessário de quem ama a Literatura.

'The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.'         Robert Frost