terça-feira, 10 de novembro de 2009

Por um frio

Talvez eu tenha ficado duro demais e por fora essa dureza é menor. Pode acreditar meu amor, essa dureza por fora é menor, tenho medo da crueza de minha real indiferença, tenho medo de todos os outros que desejem meu desespero. Assim, esse medo é o que me faz companhia, mesmo quando estou confuso, ele é o mais perto que posso me aproximar do calor humano. Assim é real, não me desespero, quase nunca. Você sabe que quando choro é por impotência, e essa impotência que se pronuncia em meus atos é bem melhor representada pela violência depositada em coisas desprovidas de espírito e nervos.

sábado, 24 de outubro de 2009

Curtas



Gosto de te olhar

e ler poesia
Assim, todo dia...



...



Foi quando enfim me perderam que consegui me encontrar.

domingo, 11 de outubro de 2009

medíocres & prepotentes

Eu não sei escrever. Não sei recitar. Eu não nasci com um dom. Não ganhei nenhum prêmio literário. Não sou famosa no sudeste do Brasil. Não me formei num curso de Direito. Não sei desenhar, nem pintar, nem esculpir. Não publiquei nenhuma obra com 18 anos. Não revolucionei a sintaxe de minha língua. Não sou regionalista, nem ufanista, nem 'ista' nenhum. Não moro em Brasília, nem no Chile. Não sou marginal, nem alternativa, nem punk. Não falo 4 línguas, nem inventei uma. Não danço ballet, nem aprecio quem o faça. Não sei dançar. Não canto, nem toco nenhum instrumento. Não fui presa na ditadura, nem torturada. Não escrevi um best seller sobre minha prisão em 64. Não morri de tuberculose. Não me suicidei na Segunda Guerra. Não comprei ações e fiquei milionária. Não sou diplomata. Não escrevi cartas quando era diplomata. Não deixei minha amante morrer afogada. Não salvei poesias de um naufrágio enquanto minha amante morria. Não sei tudo de gramática. Não me formei em Português. Não tenho nome de flor. Não mudei meu nome. Não me casei com um filósofo famoso e suicida. Não tenho heterônimos. Não sei jogar xadrez. Não fiz cinema mudo. Não fiz cinema. Ninguém chorou em meus filmes. Não sou uma psicopata, nem sociopata nem nada disso. Sou o abstrato, o fim e o meio, o propósito e a falha.
No instante em que decifro o código que me faço sentido, existo, humana e ordinária.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

.

Existe alguma coisa
que te faz mais meu e menos dia
que te faz mais vício e menos carne
que te faz mais vida e menos lágrima
alguma coisa desesperada
inominável, indescritível
é de antes do antes
onde as palavras não eram espelhos
nas mãos dos poetas

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Aos ipês floridos no caos

Hoje me agride o lirismo ufanista
me cansei de flores coloridas e perfeição
quero a falha
lamber o sangue e as feridas

Hoje o que me faz poesia
é o calor subindo do asfalto
a explosão dentro do grito
real, cru e seco

Hoje o humano me toca
no cerne e na carne,
quase sempre quente,
no olho violentado
da imundície do crepúsculo

Hoje, no desafio da lógica,
fazer do concreto música e poesia,
só me cansa o lirismo do impossível
literatura de beira de abismo
amor invisível ao chão