domingo, 8 de abril de 2012

Poema da noite


Noite
calabouço voraz
intermitente pedra nos olhos
imagens rudes
de onde o templo magnífico
não se apresenta à vossa sombra

Voraz
antídoto das mágoas
ruínas memórias suicidas
entrevejo um possível de riso
na amplitude do deserto negro.

Um desejo
é tudo que ronda tamanho espaço
é tudo que morde meu mamilo seco
é tudo que rende um faminto beijo
e exaspero-me em saudades...
Não mais aqui estamos
as mãos soltas na aurora nervosa
o suor denso o peso
o ambíguo jeito que me olhas agora...

Noite
calabouço voraz
e me admiro ainda de tua fome
do meu passo pesado
tua mão enorme:
uma sombra invade o recinto
e choro

Voraz
como as fiandeiras
sedentas pelo corte
como a sede espinhosa
na língua aflita
como o sacrifício onde
os deuses se alimentam.

De mim resta apenas
o rosto do sujeito
indefinido e criterioso
a observar o escuro fosso
de um poema inacabado.

A noite é voraz silêncio
indagações são ventos
que animam os corpos.
Estamos a um passo do deserto
e meu corpo lá espera
por um sopro do poeta.

sábado, 31 de março de 2012

Estudo n°07


Dos teus duros olhos de âmbar
escapa a minha dança
e sobram outros segredos.

Duros aspectos do medo
sinto meu pulso revidar
um ritmo atravessado em garganta
e ainda em dança em dança
no âmbar dos nossos anseios.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Por onde começamos?



Não sei ao certo se a porrada que levei hoje é válida como ponto de partida de alguma palavra forte.
Não sei mesmo. Quantas vezes se começa algo? E os términos?
Só posso sentir o gosto do sangue, delicado, na língua inquieta.
Só dúvidas.
Nada pode me fazer mais melancólica. E completa.
E o que fazer com as coleções de fracassos?
Despejo-me numa causa solitária, e o passar dos anos é o meu maior desejo.








E isso daqui fica assim, terno e flutuante, isso mesmo, é essa a referência...



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

À Ñande Ru Tenondé

Depois de fundir-se o espaço e amanhecer um novo tempo,
eu hei de fazer que circule a palavra-alma novamente
pelos ossos de quem se põe de pé,
e que voltem a encarnar-se as almas,
disse nosso Pai Primeiro.

Quando isso acontecer
Tupã renascerá no coração do estrangeiro;
e os primeiros adornados novamente
se erguerão na morada terrena por toda a sua extensão.


(Profecia da nação Guarani do clã Jeguakava, narrada por Pablo Werá no início do século XX, in: JECUPÉ, Kaka Werá. Tupã Tenondé. Editora Peirópolis: São Paulo, 2001. Página 09)