terça-feira, 30 de março de 2010

Passageira

Nada pode me matar
nem o sumiço das horas
passatempo tão pesado
nem a neblina nos olhos
amargor fechado
nem as agulhas espalhadas
gritando em minha pele
nem o sussurro tangível
de quem atravessa o labirinto
e nele se consome.

Nada pode me matar
ouço o despertar felino
das moças prostitutas febris
ouço o semáforo em amarelo
das madrugadas solitárias
meus músculos ouvem
e repelem cada centímetro.

Nada pode me matar
nem a minha insegurança
meus braços maiores que tudo
o sufoco que impus ao mundo
as trapaças na roleta russa
Nada
o frio que me enreda
e devolve meu ser azul
não pode alcançar meu peito.

Nada pode me matar
nem os tiros de glória
de um passado inexistente
nem os hermetismos de outrora
serenas madrugadas sombrias
álcool e poesia
desejo e repreensão.

Nada pode me matar
eu grito isso há tanto tempo
reviro páginas
deito espalhada
e penso se vou ficar aqui sozinha
pelo resto dos dias
sem me levantar.

Um comentário:

Elliott disse...

Nem o sumiço das horas
pelo resto do dia
me fez esquecer
o tempo -
o silêncio
das flores
no jardim.

Nem a neblina nos olhos
das moças,
prostitutas febris,
me fez desistir
das horas -
quarto, cama
pele...
clarim.

Nada pode me matar
vestido de blusa
amarela,
coberto de sorrisos.
manhã de rima
e artifícios.